Da época de Montevideo puxei também da memória, as minhas noites na varanda de nosso apartamento. Ficava no quinto andar e ocupava toda a extensão da sala e dos dois quartos da frente. De fundo teria uns tres metros. Um varandão. Eu puxava a cadeira de ferro, colocava os pés sobre a grade e ficava contemplando Pocitos à noite.
Os prédios não eram altos e predominavam as casas. Então, durante o dia tinha uma bela visão do bairro de Pocitos. No horizonte, no Rio da Prata, a praia com o mesmo nome do Bairro. Se olhasse para a minha esquerda, a uns tres quarteirões de casa, o Parque Battle y Ordoñes, com o Estádio Centenário, onde assisti jogos do Peñarol de Spencer e Matosas e depois do fabuloso goleiro Mazurkievich.
Mas sim, falava das minhas contemplações noturnas de Pocitos. De Pocitos passei a contemplar aquele céu escuro, salpicado de estrelas e comecei a viajar. Comecei me perguntando onde eu iria parar se pudesse sair voando em qualquer direção. Aonde chegaria, se pudesse voar initerruptamente. E me dei conta da grandeza daquele que muitos chamam de Deus. Não há como saber onde terminaria meu fictício vôo. A conclusão, para mim, em meus 14, 15 anos, foi de que não há um fim. E "viajei" mais ainda. E se um dia, ou melhor, zilhões de anos depois eu chegasse a bater em alguma obstrução, digamos uma parede... teria achado o final do Universo. Mas aí me apareceu uma dúvida. Se há uma parede, um muro, algo deve haver atrás disso, o que seria? Ai resolvi parar porque senão ficaria maluco. Da mesma forma que ficariamos malucos se discutíssemos a existência de Deus. Se Deus existe, veio de onde? quem existiu antes de Deus? quem criou Deus? Perguntas sem respostas, e é melhor não revolver porque é loucura certa.
Parece aquela brincadeira, mas que tem um ponto de verdade. Se a galinha nasce do ovo e todo ovo precisa de uma galinha para ser posto, quem veio primeiro? O ovo? se foi o ovo, quem o colocou? Não, foi a galinha, diz você. É? Mas a galinha não nasce do ovo? Cadê o ovo? entendeu?
Nossa! Falei tudo isso? Mas eu só queria dizer que uma das coisas mais lindas que vi nos céus de Montevideo foi a passagem das naves americanas (Apolo) a cada duas tres horas cronometradas, em um mesmo trajeto. Um pontinho azul, como uma estrela qualquer, só que andando no céu. Um espetáculo incomum, que só quem viu sabe.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
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